quinta-feira, 28 de novembro de 2013

10º capítulo Flora

Caía uma chuva leve e refrescante. Júlia se dirigia à casa de Graça e Flora, já que Gema não estava disposta a ir hoje à aula.
O caminho da Avenida Central, como era chamada a rua que levava ao metrô, era reto com calçada dos dois lados, mas os pedestres tinham que desviar de monturos diversos, espalhados nas calçadas: lixo, restos de comida, moveis velhos, entulhos de  sobras de construção, galhos de plantas... de um lado,
 onde as pessoas deixavam os entulhos, um longo paredão se estendia até a estação e copas frondosas de primavera e coração-de-homem pendia de dentro do metrô para a calçada, intercalando o caminho de entulhos e flores. Do outro lado ruas verticais, com nomes populares de diversas origens.
Flora e Graça moravam na penúltima rua.
Júlia sempre percorria o caminho debaixo do sol escaldante, intensificado pelo asfalto e acompanhado do mau cheiro do lixo. Contudo, o que lhe chamava atenção não era o cheiro e o calor, mas as flores, principalmente o coração-de-homem, que dependendo do clima, floresciam com tonalidades diferentes.
O Coque tinha sua beleza e feiura, dependia dos olhos do observador. 
Lembrou das palavras de Sr Ferreira: “da Lama saíram as casas e das casas a vida multiplicou-se em ruas, mercado, padaria, escola... Hoje esse chão é um dos mais cobiçados do Recife, pois está entre o Centro  e a Orla de Recife. Daqui vamos a qualquer lugar a pé!”.
Seu aniversário seria como todos os outros, apenas uma data para contar um ano a mais de vida.Sem festas ou presentes. E este ano sem abraços e beijos também. Fora dormir cedo e ninguém a acordou.
A chuva era fraca. Seus pingos suaves molhavam o chão e subia o cheiro de terra molhada e úmida.
A rua onde as meninas moravam, estava sendo asfaltada com paralelepípedos. Lembrava-se de quando construíram a Vila. Naquele local antes se estendia viveiros de caranguejo e peixe, feitos de lama pelos moradores das casas de tábuas e palafitas. No lugar do metrô, existira uma linha de trem. 
O muro separou a comunidade em duas. Famílias que antes atravessavam a linha do trem para pegar o viaduto ou visitar seus parentes, agora tinham de fazer um percurso mais longo.
Flora estava encostada a grade, cabeça baixa, seus cabelos curtos cobertos com um lenço, como o que Cazuza passara a usar. Era sua amiga há tanto tempo, mas nunca notara sua admiração por esse cantor ou quanto estava magra e abatida, nesses últimos dias. Ela sempre fora muito reservada  . As amigas de Júlia eram mais velhas que ela. Graça completara 16 anos em fevereiro e Gema em março, Flora ainda tinha 15 anos, mas em junho completaria 16 anos também.
Lembrava-se do dia em que se conheceram na 3ª série.
As três garotas já eram amigas de outra Escola e assim como Júlia, foram transferidas para o Costa Porto. Júlia era a mais nova, pois a professora descobrira que ela já sabia ler e escrever e por fazer aniversário no começo do ano, não teve problema. Se não fosse por isso estaria estudando na mesma sala que Angela.
  Aproximou-se da amiga.
 Algo estava errado...
- Flora?
- Oi Jú! Chegou cedo...- Flora abriu a grade e deu passagem a Júlia – Vou avisar a mamãe e Dinho que você chegou. – E entrou, deixando Julia na varanda.
- Gema não vai a aula hoje, por isso cheguei mais cedo... – começou a explicar, mas a amiga já tinha entrado e não parecia ter ouvido.
Voltou pouco depois, com a sombrinha e os livros, seguida da mãe que perguntava se ela tinha certeza de algo.
- Benção mãe!- respondeu passando rápido por Júlia.
- Se você tem certeza minha filha... Deus te abençoe! – e entrou.
Júlia ainda ouviu Dinho reclamando que isso não tava certo que ia levá-la a força e D. Maria dizendo pra ele ter calma, que estava tudo certo.
Graça também não ia à aula hoje. 
Caminharam um bom pedaço em silêncio, quando Júlia resolveu quebrar o silêncio.
- As meninas vão perder aula hoje...
- É mesmo... – respondeu sem animo e voltou a ficar muda. Ela sempre fora calada, mas tinha algo errado.
- Flora o que está acontecendo?
A amiga lançou um olhar triste e balançou a cabeça de um lado para o outro.
- Nada Jú...
- Olha só: "nada" não é resposta- falou parando de andar- você está escondendo algo de mim...as meninas estão escondendo algo. Pensa que não percebi? Os cochichos e quando me aproximo, param de falar.... pensei que fossemos amigas!
- Jú, não tá havendo nada... – respondeu quase chorando- é impressão sua!
- Pois acredito que esteja sim! E não sei se quero ser amiga de pessoas que escondem as coisas que pensam de mim, que falam por minhas costas...
- Você não ouviu? Eu disse que não é com você! – falou baixo. Tentando acalmar a amiga. 
A chuva engrossava um pouco, Júlia sentiu que estava perdendo o controle de novo. Respirou fundo, controlando seu turbilhão de sentimentos. Flora não tinha nada a ver com isso, estava ali ao seu lado.
- Mas até sua mãe e seu irmão não querem que eu ande mais com você!
Flora a encarou e balançando a cabeça de novo voltou a andar depressa, quase correndo, deixando Júlia ali.
- Flora!- Júlia chamou, mas a amiga continuou e ao atravessar a rua o carro bateu nela jogando-a na calçada.
O motorista vinha em baixa velocidade, o que foi a sorte da amiga. Parou o carro e saiu gritando com  elas e dizendo que não tinha culpa. 
Júlia estava toda molhada ao lado da amiga, a sombrinha jogada na calçada, os livros jogados na pista, pronta para levantar a amiga, quando o motorista gritou para não mexer nela.
*****
O destino às vezes nos põe exatamente onde deveríamos estar ou como costumam dizer:  Deus escreve certo por linhas tortas.
Júlia estava no corredor, muito cabisbaixa, chorando baixo, quando a mãe e o irmão de Flora chegaram.
- Minha filha Júlia? Onde está minha filha?
- D. Maria me perdoe eueu não... – e voltou a chorar. A senhora a abraçou e Dinho resmungou:
- Tá vendo! Ela devia ter vindo com a gente! Precisou ser atropelada para vir ao médico arff!!
- Dinho, pare de falar assim! A culpa foi minha! Briguei com Flora. Queria saber o que tava acontecendo, porque estavam sempre cochichando e falando as minhas costas. Ela atravessou a rua sem olhar e... eu sou a culpada!! Sempre sou a culpada! – abraçou D. Maria e começou a chorar de novo.
-Shiiii ninguém tem culpa Júlia! As meninas não queriam lhe preocupar, só isso... a Flora não está se sentido bem a dias, mas não queria preocupar você que andava tão triste...
- Eu sou uma egoísta! Sou uma cretina egoísta!
- Pare com isso Júlia! – ordenou D. Maria – não é culpa sua. Vamos, vamos!- falou enxugando as lágrimas de Júlia – Você tem de me dizer onde ela está, vou pedir ao médicos para fazerem um exame nela e saberemos o que ela tem...
O motorista as levara para o Hospital da Restauração. A emergência era um filme de terror, gente entrando com os mais diversos ferimentos, morrendo ou já morto. Mas os médicos e enfermeiros, contudo, eram ótimos e assim que chegaram, atenderam Flora que estava desmaiada, levando-a para dentro. Júlia não pudera ir junto e o motorista insistira em ficar e ligar para alguém da família.  
Ligaram para a vizinha de Flora e avisaram do acidente.
Júlia apontou para o motorista que conversava com um policial e D. Maria foi até lá.
Flora estava muito doente à quase dois meses. Nesse período, nem mesmo sua mãe conseguira levá-la ao hospital. 
A perca de peso, as insônias, náuseas e dores no corpo e cabeça eram constantes. Durante a convalescênça de Júlia as amigas guardaram segredo sobre o estado de Flora, mas um acidente a colocara exatamente onde deveria estar : no Hospital. 
O acidente não fora grave, apenas uma batida leve, pois o motorista andava a baixa velocidade. Contudo os exames mostraram que algo mais grave estava acontecendo: Flora estava com leucemia.

18/05/1990

Querido Diário,

 Flora está com leucemia e assim como seu ídolo, Cazuza que tem HIV, está muito doente.
Não sabia que ela era fã de Cazuza, não sabia que ela estava doente, não sabia que ela tinha medo de ser a mesma doença do Cantor, não sabia que minhas amigas me escondiam as coisas, não sabia que era tão egoísta, tão mesquinha, tão inútil...
Quem são minhas amigas de verdade?
Quem sou eu de verdade?
Depois do desafio, senti que devia para de me preocupar comigo mesma apenas, que existe um mundo inteiro precisando de ajuda, mas na primeira oportunidade que tenho de ser útil, sou  um monstro egoísta e brigo com minha amiga , provocando seu acidente...
Quais outras lições Deus tem para mim?
Perdão Deus! Por não ouvir, por não entender, por ser quem sou!
 Ajude-me, por favor, a mudar, a ajudar, a acharmos um doador para Flora...
Ainda não entendi o que queres de mim?
Não consigo ouvir...
O que é preciso fazer ?
O que queres de mim Pai?

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