sábado, 23 de novembro de 2013

8º capítulo Acampamento

  O sol raiava no horizonte  verde e úmido do sítio onde estávamos acampados.
            Júlia dormira pela primeira vez em uma barraca de camping e estava fascinada! Como uma vida tão simples e sem nenhum luxo podia ser tão reconfortante? E como estava precisando dessa renovação em sua alma.
Dormira na barraca  de Celine, num colchonete que sua amiga lhe emprestara, tão duro e desconfortável quanto o colchão de capim que vinha dividindo com seus pais e irmãos, uma velha bolsa, descansava com suas mudas de roupas e demais pertences. Era feita de Jeans usado por sua mãe também.
Parou e lembrou o quanto tinha sido difícil ir acampar no Palavra da Vida, naquele fim de semana. Sua mãe assumira um compromisso com a cozinha do acampamento muito antes do acidente e não deu trégua a filha, praticamente arrastou-a de casa, juntamente com seus irmãos e Celine.
Não queria companhia de ninguém! E passar um fim de semana num retiro com outras três igrejas, não era bem sua ideia de isolamento.
Haviam momentos que quase esquecia seus problemas nos encontros do grupo de teatro, mas bastava olhar suas mãos e as cicatrizes avermelhadas e doloridas para toda tristeza voltar.
Seus pais conseguiram uma consulta  no Hospital da Clínicas, com um médico da Igreja. Seu pai quase recusara, mas como se tratava de algo grave, cedera.
Celine Bateu em seu ombro e sinalizou para que se apressa-se.
- Temos que ir!- gesticulou em LIBRAS- pontualidade é um dos itens da gincana! Nosso grupo perderá pontos.
Júlia estava arrependida de ter aceito ou melhor cedido a muita coisa nesses últimos dias e a gincana, estava no topo da lista.
- Já vou !- falou apressando-se , mas sem a mínima vontade de fazer qualquer coisa.
Estava nessa nostalgia que ia e vinha. Alguns dias, como hoje, parecia que a tristeza era apenas uma sombra, outros, que era o ar que respirava, sufocando-a.
Correram para a fila do café que estava enorme!
Foi ali na fila que Júlia a viu pela primeira vez.
Uma moça magra, de cabelos rebeldes, nem cacheados, nem lisos, que estavam amarrados por um elástico na altura do pescoço. Estava sentada a uma certa distância do grupo, com seu café esfriando ao seu lado, enquanto lia um livro aberto sobre a mesa.
Todos pareciam ignorá-la, mas chamou a atenção de Júlia e a sensação de conhecê-la de algum lugar começou a incomoda-la, até que lembrou.
- Celine, aquela é Angela? A filha de Sr Rafael? – gesticulou para amiga
- É sim...- respondeu, mas interessada em achar o Raul– ela é assim mesmo, por fora das coisas, só gosta de ler e fala coisas difíceis e chatas...  – parou quando avistou seu namorado e pedindo licença foi até lá conversar com ele no fim da fila.
“ Nem você Celine que conversar comigo...”
Olhou na direção dos dois que lhe acenaram de volta, mandando esperar na fila.
                                               *****
Aquele poderia ter sido um dia maravilhoso para Júlia, mas ela não quis jogar, não quis nadar na piscina, não quis brincar de UNO, não queria fazer nada!
Os amigos acabaram deixando-a na sua ali, sentada próximo a piscina, pois tinha de tomar conta de seus irmãos e foram divertir-se com os garotos na água.
Nila soltava grandes gargalhadas enquanto Raul a segurava sobre a água. Seus irmãos brincavam com Celine que os ensinava a nadar no raso e de vez em quando provocavam Júlia jogando um pouco de água em sua direção.
                                               ***
Ao entardecer, fizeram uma fogueira e começaram a cantar e brincar sentados ao redor. A lua estava cheia e clara naquele sábado.Júlia reparava como o silencio preenchia os espaços entre uma música e outra e sentiu-se, mais uma vez, em paz. Foi quando viu Angela  distante da fogueira, sentada num dos vários bancos ali perto, lendo o mesmo livro do café. Algumas pessoas, mais velhas aproximavam-se, conversavam e iam embora, mas nenhum adolescente se aproximava. Nenhuma amiga ou amigo.
Sabe quando estamos no fundo de um poço e reconhecemos alguém ali dentro? Parece que somos tirados de nossa dor e queremos ajudar o outro a superar a dele, pois assim nos sentiremos melhor. Foi exatamente esse sentimento que fez Júlia ir em direção a Angela.
Não faziam parte da mesma igreja, mas ela estava morando na casa do avô de Angela, conhecia o pai dela, morava na mesma comunidade e tinham estudado na mesma escola.
Aproximou-se cautelosamente e percebeu que ela lia a Mão e a Luva de Machado de Assis. Era um de seus livros prediletos e sempre o lia quando visitava a Biblioteca de Afogados.
- Oi! Tá gostando da leitura? Eu já li e é muito bom!
Angela a olhou de relance:
- Depende... e você ? qual tipo de leitura gosta?  barroco, romantismo, humanismo, modernismo...
- Hãm??- respirou fundo, enquanto a garota lhe encarava, aparentemente avaliando-a, sem sorrir. Respirou e respondeu:
- Eu gosto de ler. -  e sorriu nervosa.
- Pois é... – falou sarcástica- era o que eu estava fazendo. – aquilo era um fora! Júlia, contudo estava disposta a ignorar e continuar o diálogo.
- Já li a Mão e a Luva, só que nem sempre lembro quem escreveu rsrsrs Machado ou Alencar, eles me confundem, principalmente nos títulos...
- Bom, se você não consegue distinguir dois escritores tão diferentes acredito que tenha de fazer uma pesquisa para sanar essa sua dificuldade em literatura, antes de prestar vestibular, mas se só está puxando conversa, terei de interromper minha leitura e lhe dar dez segundos de atenção...
- Desculpe, era apenas uma piada! É lógico que sei que ambos são o expoente máximo da literatura brasileira, que viveram na mesma época, sendo que José de Alencar destacou-se como o MAIOR ESCRITOR DA PROSA ROMÂNTICA no Brasil, tendo passado por várias fases: indianista, urbana, regionalista e histórica.

O carioca Machado de Assis dividiu a sua obra em duas fases: romantismo e realismo mas foi, sem dúvida, O MAIOR ESCRITOR REALISTA DE TODOS OS TEMPOS.

- Decorou muito bem!- falou Angela sorrindo pela primeira vez.
- É que adoro ler e escrever, mas estou impossibilitada no momento...
- Sei...
- Mas não pude aceitar o fato de que alguém que vem para este lugar, possa ficar tão isolada, principalmente, alguém que está lendo a Mão e a Luva...
- Você acha que sou sensível ou romântica por isso? kkkkk estou começando a gostar dessa conversa. Quem é você - perguntou curiosa.
- Eu? Sou a Júlia. Estudei na mesma Escola que você e to morando na casa de seus avós.
- Júlia... meus avós comentaram algo a respeito.- falou fechando o livro e refletindo sobre aquela nova informação- Seus pais e meus avós nasceram na mesma cidade e de acordo com eles, somos primos beeemm distantes, mas em cidades pequenas todo mundo é família, concorda?
- Angela, acho que to atrapalhando demais a sua leitura... – a conversa estava boa, mas não queria forçar uma aproximação. Sabia bem o que é querer ficar sozinha sem ninguém chateando. E a menção a palavra prima a fez lembrar de Bil, sua avó e a casinha lá no sítio.
- Que é isso “prima” rsrsrs você não atrapalha!
- Você vai participar da social de hoje? O encerramento da gincana?
- Bom, se terminar a leitura e fizer a resenha, talvez participe.
- E falta muito?
- Estou no 2º capítulo.
- Ah, tá! Já entendi... vou deixar você em paz, assim quem sabe podemos conversar amanhã no ônibus ...
- É... quem sabe?
Tudo que passara nesse último mês veio a sua mente ao afastar-se de Angela. Ela era arredia, mas tinha sensibilidade. Observara o jeito que falara dos avós, seus olhos brilharam. Seria muito bom conversar com ela.

QUERIDO DIÁRIO
05/05/1990

            Minhas mãos vêm melhorando aos poucos e quase não sinto dor quando escrevo. Os pontos foram tirados e já consigo escrever,com dificuldade e bem devagar, a letra é horrorosa ,mas escrevo!
            Hoje tive a oportunidade de conversar com a Angela. Ela participou da Social e conversamos muito.
            Apesar de ser tão careta e as vezes chata rsrsrs ( palavras dela), ela é muito legal!
            Acredita que ela leu A Mão e a Luva e fez uma resenha em quatro horas? E quando perguntei porque não terminara antes, ela me olhou e disse:
            - Ter um livro nas mãos é a melhor maneira de afastar pessoas quando precisamos escutar nossa própria voz e conversarmos com nosso EU interior.
            Caracas!! Rsrsrs ela delira às vezes né? E eu que pensava ser CDF demais... rsrsrs nem parece que acabou de completar 13 anos...
            Sorrimos muito e refleti muito sobre mim hoje. E olhe que não tenho muitos motivos para sorrir, faz tempos, mas por que ela é tão solitária? Tão isolada? É quase como se não existisse nesse mundo, como se tivesse nascido no tempo errado...

Um comentário:

Bia Suzena disse...

oi, minha amiga! Queria dizer q sua história está ótima, muito linda e muito bem escrita! Vc tem desenvolvimento muito bem o tema, e eu até cheguei a imaginar se não haveria nada de auto ficcional no texto.. bem, eu sei q isso é bobagem! Mas eu fiquei curiosa pra saber se essa é uma realidade q vc conhece/conheceu bem.. a questão do ambiente em q Júlia vive, e tudo o mais! O clima aqui tá ótimo pra ficar em casa, tomando um chocolate quente e lendo a sua história!! Uma chuvinha fina muito abençoada! será q tem mais pra gente?