sábado, 23 de novembro de 2013

9º capítulo Grupo de teatro EMPA



Estava calada desde o retorno do Acampamento. A social de encerramento fora muito boa, conversou muito com a Angela e na volta Celine e Raul já estavam conversando com ela também, quer dizer eles falavam e gesticulavam e ela calada sorria simpática e comentava algumas coisas.
Seus irmãos voltaram super queimados do sol, mas muito contentes. Enfim, por que retornar a velha tristeza? Não conseguia. Ela bateu a sua porta assim que o ônibus chegou a Igreja e  o sonho do acampamento ficou pra trás.
Continuava sem querer conversa com suas amigas, mas como fugir? Eram suas amigas! Estudavam com ela, voltavam da escola juntas, faziam trabalhos juntas... tudo bem que ultimamente devido a seu silêncio elas estavam caladas, até afastadas, mas nunca a deixavam sozinha só durante os ensaios do Grupo de teatro da Escola Municipal Pedro Augusto ou EMPA.
Andavam aos cochichos pelos cantos, mas quando se aproximava silenciavam, mudavam de assunto. Como agora quando ao se afastar para beber água e ficara observando. Estava acontecendo algo e suas amigas não queriam perturbá-la. Também não sabia se queria ser perturbada nesse momento, talvez se conversa com Flora ou Gema a sós, elas abrissem  o jogo.
Aproximou-se das amigas e pegou seu material avisando que ia até o Grêmio, saber maiores detalhes sobre o Desafio.
Entrou sem bater na sala do Grêmio. A porta estava aberta e, como sempre, alguém estava sentado no birô. Era uma sala pequena com um birô, um armário e várias prateleiras lotadas de troféus e livros.
Nunca tinha visto aquele rapaz. Tinha os cabelos cortados bem curtos, usava roupas simples e estava concentrado no tabuleiro de xadrez a sua frente. Percebendo a entrada de Júlia levantou a cabeça e sorriu. Foi aquele sorriso, com covinhas que a fez sentir seu coração bater forte.
- Ooo-oi! Eeeu vim saber mais sobre o desafio...-  falou gaguejando. Detestava quando isso acontecia.
O rapaz levantou e aproximou-se de Júlia estendendo a mão.
- Meu nome é Leo, sou da direção do Grêmio. Acredito que não nos conhecemos.
- Soou a Júlia...- e apertou a mão dele. O que a deixou totalmente sem fôlego foi quando ele segurou sua mão, simplesmente levou-a aos lábios  e beijando. Aquilo a deixou sem atitude , queria fugir dali , pois sabia que estava com as faces coradas de vergonha.
- Hum Júlia... Bonito nome... – falou como se não tivesse acontecido nada demais e voltou ao birô , perguntando:
- Sabe jogar xadrez?
“ Como é que é? O cara beija minha mão e quer saber se jogo xadrez? Deve ser maluco, além de lindo, quer dizer além de sonso...”
- O pessoal do teatro tá chegando, mas enquanto isso podíamos jogar uma partida de xadrez...- continuou falando e olhando o tabuleiro.
- Bom, é que eu não sei se...
- Você não sabe jogar? Ora Júlia! Eu te ensino, venha. – falou apontando a cadeira na frente do birô e sem esperar resposta desarrumou as pedras do jogo pondo-as  na posição inicial.
- O Xadrez é um jogo de raciocínio e estratégia... nos faz refletir sobre a vida e os passos que damos ao escolher certos caminhos. O resultado de cada jogada, pode ser o sucesso ou a derrota... – falava enquanto arrumava as peças e Júlia não teve outra alternativa além de sentar , ouvir e aprender.
- Vou jogar com você? Com certeza já sei que serei derrotada...
Ele parou de falar por um momento e a encarou dizendo:
- Hum esse é um detalhe importante... Se você sabe que o destino de toda vida é a morte, então por que sai todo dia da cama, para fazer coisas que não resultarão em um destino diferente?
- Eu...
- Esperança, Júlia, Desafio, Fé e força de vontade! – falou sorrindo e mostrando as covinhas – porque a morte é apenas uma passagem, algo que nos leva a uma nova vida, assim como o bebê que está no útero e tem medo de nascer por não saber o que vem depois...
Percebendo a confusão de Júlia, explicou:
- Meu tio fez esse tabuleiro de madeira e quando me deu também falei o mesmo que você. Mas ele me respondeu o que acabei de te falar e desde então, encaro meu medo da derrota, pois sempre tenho esperança de um dia vencer.
- Hãaã eu... – olhou aquele rapaz que a desafiava e perturbava, estava pronta para sair e desaparecer dali, quando sentiu algo em seu interior. O mesmo sentimento que tivera ao dar um pontapé em Paulo e enfrentar Bil...
Sentou na cadeira enfrente ao birô, colocou os cadernos ao lado do tabuleiro e encarando Léo, disse:
- Me ensine como se joga, por favor!
Léo deu uma gargalhada gostosa, que foi acompanhada do riso de Júlia.
- Moça esperta!
Ficaram ali por meia hora até a chegada do responsável pelo grupo de teatro. O jogo ficou sobre a mesa enquanto outras pessoas chegavam e cumprimentavam o Léo. Cada um falou sobre seu projeto para o Desafio e quem faria parte do grupo.
- Meu desafio é viver um dia de mendigo. – todos olharam Léo , alguns com cara de nojo – Quero que a Júlia participe comigo!
Aquilo a pegou de surpresa. Quando ia dizer que não podia, olhou para o tabuleiro de xadrez.
- Eu topo! – e encarou aquele rapaz que mais uma vez a desafiava.

QUERIDO DIÁRIO
16/05/1990
Amanhã é meu aniversário.
14 anos!!
O que tenho feito de minha vida?
Qual será meu futuro?
Participei do Desafio com o Léo... Saiu até no Diário de Pernambuco!
Como nossa vida parece ser tão pequena quando vemos os problemas dos outros. Quantos olhares de nojo e asco tive de aguentar e quando estava com fome e suja uma garota de rua dividiu seu pão comigo...
Quantas lições de vida aprendi...
Amanhã nasce uma nova Júlia.

Por enquanto, tento não sonhar com um certo lindo sorriso ...

2 comentários:

Isa Lopes disse...

Sempre acompanho os capítulos, e já estou ansiosa para ler os próximos, estou amando o livro.
Beijos!
islary34.blogspot.com

Angela Lira disse...

Oi Isa!

O prazer é meu de te ter por aqui!! também sempre passo lá no teu cantinho pra ver as novidades rsrs
Fique a vontade pra comentar o que não gostar também, eu agradeço.
O que você está achando da Júlia nessa II parte? Já tá participando do sorteio? Bjs